Lucerna é a revista literária digital da Fundação José Saramago. Foi lançada hoje em comemoração do Dia Nacional do Livro. Abaixo um pouquinho do que ali está.

Cadernos de Lanzarotte I (1994)

13 de agosto

Continuo a trabalhar no Ensaio sobre a Cegueira. Após um princípio hesitante, sem norte nem estilo, à procura das palavras como o pior dos aprendizes, as coisas parecem querer melhorar. Como aconteceu em todos os meus romances anteriores, de cada vez que pego neste, tenho de voltar à primeira linha, releio e emendo, emendo e releio, com uma exigência intratável que se modera na continuação. É por isto que o primeiro capítulo de um livro é sempre aquele que me ocupa mais tempo. Enquanto essas poucas páginas iniciais não me satisfizerem, sou incapaz de continuar. Tomo como um bom sinal a repetição desta cisma. Ah, se as pessoas soubessem o trabalho que me deu a página de abertura do Ricardo Reis, o primeiro parágrafo do Memorial, quanto eu tive de penar por causa do que veio a tornar-se em segundo capítulo da História do Cerco, antes de perceber que teria de principiar com um diálogo entre o Raimundo Silva e o historiador… E um outro segundo capítulo, o do Evangelho, aquela noite que ainda tinha muito para durar, aquela candeia, aquela frincha da porta…

17 de dezembro

Voltei – timidamente – ao Ensaio. Modifiquei umas quantas coisas, e o capítulo ficou bastante melhor: a importância que pode ter usar uma palavra em vez de outra, aqui, além, um verbo mais certeiro, um adjetivo menos visível, parece nada e afinal é quase tudo.

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Mia Couto, de novo

‎”(…) Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambiente que reconhecemos.Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território. O medo foi afinal o mestre que mais me fez desaprender.
Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.”

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A busca do absoluto

Fragmento do texto escrito por Jean-Paul Sartre para a apresentação do catálogo da exposição “Alberto Giacometti”, em Nova York, na Pierre Matisse Gallery, em janeiro de 1948.

“… Giacometti costuma representar nosso embaraço colocando, por exemplo, uma cabeça longínqua sobre um corpo próximo, de modo que já não saibamos onde nos situar nem, literalmente, como focalizar. Mas, mesmo sem isso, essas imagens ambíguas desconcertam, de tanto melindrarem os mais caros hábitos de nossos olhos: há tanto tempo estamos familiarizados com criaturas lisas e mudas, feitas para nos curar do mal de ter um corpo; esses gênios domésticos acompanharam as brincadeiras de nossa infância, testemunham nos jardins que o mundo não tem riscos, que não acontece nada a ninguém e, por isso, a única coisa que lhes aconteceu foi morrer quando nasceram. Mas a estes corpos algo aconteceu: estariam saindo de um espelho côncavo, de uma fonte da Juventude ou de um campo de deportados? À primeira vista, acreditamos tratar-se dos mártires desencarnados de Buchenwald. Mas no instante seguinte mudamos de opinião: essas naturezas finas e esguias sobem ao céu, surpreendemos toda uma revoada de Ascensões, de Assunções; dançam, são danças, são feitas da mesma matéria rarefeita que os corpos gloriosos que nos são prometidos. E, quando ainda estamos contemplando esse arrebatamento místico, eis que esses corpos emaciados desabrocham, diante de nossos olhos restam-nos apenas flores terrestres. Essa mártir era apenas uma mulher. Mas uma mulher inteira, entrevista, furtivamente desejada e que se afasta e passa, com a dignidade cômica dessas compridas moças estropiadas e quebradiças que chinelas de salto alto passeiam preguiçosamente da cama ao banheiro, com o horror trágico das vítimas brunidas de um incêndio, de uma fome, uma mulher inteira dada, recusada, próxima, distante, uma mulher inteira, cuja corpulência deliciosa é obcecada por uma magreza secreta e a atroz magreza por uma suave corpulência, uma mulher inteira, em perigo na terra e que já não está completamente na terra, e que vive e nos conta a surpreendente aventura da carne, a nossa aventura. Pois, como a nós, aconteceu-lhe nascer.”

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A invenção da solidão

“Lentamente, vou compreendendo o absurdo da tarefa de que me incumbi. Tenho a sensação de tentar ir a algum lugar, como se eu soubesse o que quero dizer, mas quanto mais longe vou, mais seguro me sinto de que o caminho rumo ao meu objetivo não existe. Tenho de inventar a estrada a cada passo e isso significa que nunca posso ter certeza de onde me encontro. Uma sensação de andar em círculos, de sempre voltar atrás pelo mesmo caminho, de partir em várias direções ao mesmo tempo. E mesmo que consiga fazer algum progresso, não estou nem um pouco convencido de que vá me levar aonde penso estar indo. Só porque vagamos sem rumo no deserto não significa que exista uma terra prometida.”

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Recortando Tarkovski

“De qualquer modo, fica perfeitamente claro que o objetivo de toda arte – a menos, por certo, que ela seja dirigida ao ‘consumidor’, como se fosse uma mercadoria – é explicar ao próprio artista, e aos que o cercam, para que vive o homem, e qual é o significado da sua existência. Explicar às pessoas a que se deve sua aparição neste planeta, ou, se não for possível explicar, ao menos propor a questão.

“… O homem está eternamente estabelecendo uma correlação entre si mesmo e o mundo, atormentado pelo anseio de atingir um ideal que se encontra fora dele e de se fundir ao mesmo, um ideal que percebe como um tipo de princípio fundamental sentido intuitivamente. Na inatingibilidade de tal fusão, na insuficiência do seu próprio ‘eu’, encontra-se a fonte perpétua da dor e da insatisfação humanas.

“E assim, a arte, como a ciência, é um meio de assimilação do mundo, um instrumento para conhecê-lo ao longo da jornada do homem em direção ao que é chamado ‘verdade absoluta’.

“Através da arte o homem conquista a realidade mediante uma experiência subjetiva. Na ciência, o conhecimento que o homem tem do mundo ascende através de uma escada sem fim, e a cada vez é substituído por um novo conhecimento, cada nova descoberta sendo, o mais das vezes, invalidada pela seguinte, em nome de uma verdade objetiva específica. Uma descoberta artística ocorre cada vez como uma imagem nova e insubstituível do mundo, um hieroglifo de absoluta verdade. Ela surge como uma revelação, como um desejo transitório e apaixonado de apreender, intuitivamente e de uma só vez, todas as leis deste mundo – sua beleza e sua feiúra, sua humanidade e sua crueldade, seu caráter infinito e suas limitações. O artista expressa essas coisas criando a imagem, elemento sui generis para a detecção do absoluto. Através da imagem mantém-se uma consciência do infinito: o eterno dentro do finito, o espiritual no interior da matéria, a inexaurível forma dada.”

Andrei Tarkovski

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Mia Couto

‎” ‘Não basta que seja pura e justa a nossa causa. É preciso que a pureza e a justiça existam dentro de nós.’
“Esse que escreveu isso é um homem bom, mas está sozinho.”

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Frase

“primeiro eu tinha que me tornar homem; a arte viria depois, como consequência.”

Paul Klee

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