A busca do absoluto

Fragmento do texto escrito por Jean-Paul Sartre para a apresentação do catálogo da exposição “Alberto Giacometti”, em Nova York, na Pierre Matisse Gallery, em janeiro de 1948.

“… Giacometti costuma representar nosso embaraço colocando, por exemplo, uma cabeça longínqua sobre um corpo próximo, de modo que já não saibamos onde nos situar nem, literalmente, como focalizar. Mas, mesmo sem isso, essas imagens ambíguas desconcertam, de tanto melindrarem os mais caros hábitos de nossos olhos: há tanto tempo estamos familiarizados com criaturas lisas e mudas, feitas para nos curar do mal de ter um corpo; esses gênios domésticos acompanharam as brincadeiras de nossa infância, testemunham nos jardins que o mundo não tem riscos, que não acontece nada a ninguém e, por isso, a única coisa que lhes aconteceu foi morrer quando nasceram. Mas a estes corpos algo aconteceu: estariam saindo de um espelho côncavo, de uma fonte da Juventude ou de um campo de deportados? À primeira vista, acreditamos tratar-se dos mártires desencarnados de Buchenwald. Mas no instante seguinte mudamos de opinião: essas naturezas finas e esguias sobem ao céu, surpreendemos toda uma revoada de Ascensões, de Assunções; dançam, são danças, são feitas da mesma matéria rarefeita que os corpos gloriosos que nos são prometidos. E, quando ainda estamos contemplando esse arrebatamento místico, eis que esses corpos emaciados desabrocham, diante de nossos olhos restam-nos apenas flores terrestres. Essa mártir era apenas uma mulher. Mas uma mulher inteira, entrevista, furtivamente desejada e que se afasta e passa, com a dignidade cômica dessas compridas moças estropiadas e quebradiças que chinelas de salto alto passeiam preguiçosamente da cama ao banheiro, com o horror trágico das vítimas brunidas de um incêndio, de uma fome, uma mulher inteira dada, recusada, próxima, distante, uma mulher inteira, cuja corpulência deliciosa é obcecada por uma magreza secreta e a atroz magreza por uma suave corpulência, uma mulher inteira, em perigo na terra e que já não está completamente na terra, e que vive e nos conta a surpreendente aventura da carne, a nossa aventura. Pois, como a nós, aconteceu-lhe nascer.”

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