Casta diva. Callas e a pulsão de morte

Recebi com grande prazer o convite de meu amigo Alfredo Naffah Neto para escrever a orelha de seu livro, cujo título vai acima.  Naffah é psicanalista e cantor. Sua paixão pelo belcanto é imensa e sua dedicação à música de câmera apaixonante. O lançamento será no dia 10 de setembro; local e horário, na filipeta que segue. Abaixo o texto que escrevi para o livro.

“Ao contrário de outros músicos, o cantor carrega em si o seu instrumento, que sofre os sintomas do corpo e da alma e que, por outro lado, goza o benefício dos momentos felizes. Coisas que não abalariam a regularidade de outros instrumentistas,  podem facilmente fragilizar o cantor que, quando pisa no palco, mata ou morre: independentemente de seu estado de espírito e mesmo de sua saúde, o público quer ter prazer. Naquele momento o cantor é um deus.

Neste livro, Alfredo Naffah Neto relata lindamente a trajetória de Maria Callas. Um ser humano extremamente frágil e uma artista feroz. Com uma história tão difícil, Callas conseguiu dar vida a várias personagens, entregando-se integralmente. Talvez possamos dizer que envelheceu cada uma de suas vidas e a si mesma nessa sua curta carreira.

Sua voz não era unanimidade. Uns a diziam feia. Outros, insuficiente. Mas o que fazer se Callas encarnava suas personagens a ponto de se tornarem não apenas referências, mas únicas? Trouxe consigo o novo. Num tempo em que a única coisa realmente importante na ópera era a voz, Maria Callas agregou à esta arte o teatro. Agora a ópera estava completa.

Alfredo Naffah Neto faz um paralelo entre Norma, personagem da ópera homônima de Bellini e a conturbada vida de Maria Callas, sua maior intérprete.  A partir da visão psicanalítica, Naffah  conta a trajetória de Norma, sacerdotisa druida que, tendo uma vida casta, apaixona-se por Pollione. Callas, por sua vez, faz da sua profissão um sacerdócio, que começa a desmoronar, também  por amor.

Norma, de Bellini; Tosca, de Puccini; La Traviata, de Verdi; Maria, de Onassis. O armador grego apresentou Maria à Callas, a mulher à Diva. Sempre preparada para suas personagens, Maria enfrentava, então, seu maior desafio: ser mulher. Acostumada a saber de antemão as reações e finais de suas heroínas, vivia agora uma história onde o final era desconhecido. Mas a mulher que deu um novo rumo à ópera não levou a cabo a construção de seu maior personagem.

Assim como Norma, Callas,ou melhor, Maria, diante do rompimento do vínculo amoroso com Onassis, entra em ruínas. Valendo-se do conceito de pulsão de morte e da desmesura que pode atingir sua intensidade, Naffah nos propõe um intercâmbio entre a arte do canto e a psicanálise com o respeito que só quem conhece muito bem essas duas áreas poderia oferecer.”

Paulo Mandarino, tenor

Anúncios
Esse post foi publicado em Livros, Música, Ofício do cantor, Persone. Bookmark o link permanente.

4 respostas para Casta diva. Callas e a pulsão de morte

  1. deborah disse:

    gostei do texto e voltarei a esta toca. abs.

  2. Maria Alice disse:

    Belìssimo texto escrito em belas letras que nos fala
    do grande desafio de Amar, da Castidade, esta Pedra
    Angular, interface singular na vida de todos nos para
    a conquista da Consciência Solar!
    Parabéns Paulo, carìssimo homem que vive na Arte
    e a vivifica de forma inspiradora.
    Beijo no coração!
    Alice

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s