Carta a Theo

Li, hoje, o trecho que segue abaixo. Trata-se do primeiro parágrafo de uma carta de Vincent van Gogh para seu irmão Theo. Fui acachapado pela simplicidade e clareza da descrição da mencionada gravura. Aos poucos fui me sentindo ali, dentro daquele pedaço de papel, envolvido pelas palavras de Vincent, envolvido pelo modo como ele via e sentia a tal gravura. Me senti um participante da cena, da tristeza, da solidão e da morte eminente daquele animal. Para ser honesto, me senti o próximo. Curiosamente ele diz que a “gravura não tem um valor artístico muito grande”. Não sei que gravura é, nunca a vi, mas sei que pelo menos o modo como van Gogh a traduz é arte pura. 

Laeken, 15 de novembro de 1878

“Foi precisamente no momento em que os varredores de rua voltavam com suas carroças puxadas por velhos cavalos brancos, havia uma longa procissão destas carroças perto da chamada Granja do Barro, no começo do caminho da sirga à beira do rio. Alguns destes velhos cavalos brancos parecem-se com certa velha gravura em água-tinta, que talvez você conheça bem, uma gravura que não tem um valor artístico muito grande, mas que contudo me chamou a atenção e me impressionou. Estou falando da última série de gravuras intitulada A vida de um cavalo. Esta gravura representa um velho cavalo branco, mirrado e esquelético, e totalmente esgotado por uma longa vida de dura faina, de um trabalho duro e penoso. O pobre animal se encontra num lugar indescritivelmente solitário e abandonado, uma campina onde cresce um capim seco e árido, tendo aqui e ali uma árvore retorcida, dobrada e despedaçada pela borrasca. Uma caveira jaz por terra e ao longe, em segundo plano, o esqueleto descorado de um cavalo, ao lado de uma choupana onde mora um homem que trabalha de esfolador. Um céu tempestuoso sobrepõe-se ao conjunto, é um dia acre e rude, um tempo sombrio e escuro…”

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Uma resposta para Carta a Theo

  1. Eliane Accioly disse:

    Querido Paulo,

    Vicent e Téo eram irmãos não apenas na história familiar, irmãos de alma.
    Sou tua irmã.

    Grande abraço

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