Cantar

Que bela voz!”… “Como ela canta bem!”… “Ah se eu tivesse essa voz!”… “Que dom! Quem me dera!”… “Quem! Eu? Ahahahah!!” Quem, em algum momento, não ouviu ou mesmo chegou a dizer uma dessas frases? No carro, em casa, na academia, no teatro… Seja onde for, não é raro sentirmos vontade de ser protagonistas de pelo menos uma frase da música da qual mais gostamos. Também não é raro, nesses momentos, sermos flagrados por outras pessoas. Quando isso acontece ficamos desconcertados; fingimos limpar a garganta de um “pigarro súbito”… Pior ainda quando esse esbarro no ouvido alheio traz o riso que não sabemos se de aprovação ou de deboche. Lembramos então daqueles momentos em que fomos repreendidos por nossos arroubos canoros, momentos em que disseram a “verdade” sobre a nossa pobre voz: “Menino! Pare de cantar! Você está me irritando!”; “ô minha filhinha, que vozinha desafinada!” Desde que comecei a lecionar canto, me deparei com vários casos como esses. Pessoas que chegavam até mim com muita vontade de aprender a cantar, mas que traziam consigo a certeza de que jamais conseguiriam. Algumas dessas pessoas até achavam graça da situação, mas a maioria sofria verdadeiramente com o rótulo imposto, às vezes por si mesmos. Lembro-me de uma atriz, mulher bonita, grande, vistosa, talentosa… Chegou com uma voz pequenininha, já se desculpando pela audácia de roubar o meu tempo. Conversamos um pouco e pedi a ela que cantasse algo. Ela tentou, tentou e desistiu.  Refiz o pedido… nada. Até que ela se encheu de brios e me disse que iria até o outro cômodo e voltaria cantando. Pois bem, lá foi ela. Não escuto nada. De repente alguma coisa parecida com o miado de um gato se faz perceber. Era ela que vinha, linda, trêmula, tentando soltar alguma coisa que se parecesse com uma voz. Após o susto falamos um pouco sobre a experiência e começamos os exercícios. Surpreendentemente vimos que o tal miado escondia, na verdade, uma bela voz. Não apenas bela, mas potente. Outro caso interessante foi a de um querido aluno que, ao chegar, disse que veio “pra ver se haveria a possibilidade de um dia, quem sabe, cantarolar um pouquinho de mpb”. Esse rapaz, trinta e poucos anos, médico, ao se ver dono de uma voz poderosa que serviria não apenas para cantar sua bossa nova, mas também as mais belas e famosas óperas, começou a pular e a chorar de alegria. Muitas são as pessoas que, como as que citei, pensam não poderem ter esse prazer em suas vidas. Isso é incorreto. Qualquer pessoa que tenha um aparelho fonador em boas condições pode cantar, ou seja, qualquer um que respire e fale pode cantar. Podemos também observar as crianças: Como gritam! Que saúde! Como usam bem suas vozes! O canto é tão inerente ao ser humano que podemos até fantasiar – se é que não foi assim que aconteceu – que tenha sido a primeira manifestação vocal do Homem. Cantar é uma experiência única; uma maneira de nos aproximarmos de nós mesmos, um modo de despertar coisas que sequer imaginamos.

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