O ofício do cantor, III

Quando vemos um pianista, um violinista, um saxofonista, enfim, qualquer instrumentista utilizando seu instrumento com mestria, ficamos boquiabertos. Pensamos em toda a técnica que é utilizada, no modo como se faz um vibrato, na rapidez das mãos, dos dedos, do raciocínio… Tantas coisas nos passam pela mente. Não raro, esses músicos passaram horas e horas por dias e anos, se aperfeiçoando, “dialogando” com seus instrumentos, aprendendo seus caprichos e truques. Para se tornar um virtuose é necessário não apenas talento, mas uma grande vocação. No caso do cantor o trabalho não é menor. Podemos dizer que até pelo contrário. Muitas pessoas associam o bem cantar a um dom recebido. Sim, alguns são o que poderíamos chamar de bichos de palco, como Callas, Domingo, Elis… São aqueles que, sem sombra de dúvida nasceram para cantar, mas esse fato não exclui um exaustivo trabalho.  Mas comecei falando sobre os instrumentistas por uma razão curiosa: excetuando o pianista – que não poderia carregar seu instrumento nas costas – os outros músicos levam consigo seus equipamentos de trabalho, mas apenas o cantor o leva consigo, apenas o cantor é o próprio instrumento. Isso que parece ser uma grande vantagem torna, na verdade, as coisas muito mais complicadas. Sendo o próprio instrumento, nós, cantores, lidamos com o que não vemos. O que nos guia são nossas sensações. Respiramos e emitimos a tal da voz, esse ser informe e aparentemente indomável. Precisamos aprender que cada nota que sai por esse veículo deve ser pensada. Cada uma delas faz com que uma complicadíssima rede de músculos esteja operante, atuando numa sintonia fina com com nossos instintos, vontades, percepções, fragilidades, hormônios e tantas outras coisas que sequer imaginamos. Do mesmo modo como vamos a uma academia exercitar a musculatura, o cantor o faz. Para isso se utiliza das vogais que vão fortalecendo e moldando a musculatura do instrumento. Como se colocássemos a voz numa “forma”. Após algum tempo – o tempo de cada um – passamos a entender que para conseguirmos esse ou aquele resultado sonoro, precisamos sentir internamente essa ou aquela sensação. Parece conversa de gente doida, não é? Mas essa é uma realidade que está todos os dias à nossa frente.

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