O ofício do cantor, II

O trabalho com a voz é, em grande parte, muscular. Exige treinos constantes para que a engrenagem funcione com autonomia. Pavarotti dizia que quando ficava um dia sem cantar, notava a diferença; se não cantasse por dois dias, o público notava a diferença. No meu modo de ver, isso é um exagero, mas é muito parecido com o que acontece na realidade. Um cantor como ele que, no auge da carreira, se apresentava de três a quatro vezes por semana em partes diferentes do mundo, precisaria de muito descanso, não apenas vocal. Placido Domingo que, no jargão da profissão, é um animal, ou seja, trabalha sempre numa porcentagem altíssima de acerto, dizia, também em seu auge, que ficava absolutamente calado entre apresentações. Como se pode notar, a vida de cantores como eles não é brincadeira. Há muito mais de trabalho, dedicação e necessidade de se poupar do que do tal glamour. E os outros? Existem os cantores dos quais pouco ouvimos falar, mas que estão presentes em todas as temporadas dos principais teatros de ópera do mundo. E existimos nós, os cantores da nossa terrinha, o Brasil. Seja quem for, o cantor brasileiro, aquele que atua por aqui, que batalha todos os dias por um lugar fora do desemprego, esse cantor, quando encontra uma oportunidade, trabalha como se fosse essa a sua primeira vez. A crítica especializada olha o cantor nacional como se estivesse apreciando os cantores de carreira internacional e, com isso, nos julga como se trabalhássemos em iguais condições. Tal exigência é bem vinda. Se não nos espelharmos nos grandes não chegaremos em lugar algum. Penso que a crítica, os diretores de nossos teatros e os maestros poderiam pensar em uma maneira de utilizar o maior número de cantores possível, num rodízio de óperas e teatros. Temos em nosso país vários teatros com capacidade de abrigar produções operísticas. Se cada teatro produzisse duas óperas por ano de modo que essas produções pudessem viajar, teríamos um país competitivo também nesse campo.  Duas óperas por ano pensadas para viajarem e caberem em vários tipos de palco. Não parece ser uma coisa difícil.

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2 respostas para O ofício do cantor, II

  1. Paulo, parabéns pelo novo espaço, ficou ótimo. Estarei sempre por aqui!

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