Papinha para quem precisa

Tenho ouvido e lido comentários de alguns colegas do meio lírico que dizem que esse nosso país não respeita os bons artistas. Fato. Imagino que em todas as áreas da arte haja intolerância para com aqueles que fazem diferença/diferente. Gosto de citar o meu espanto ao assistir um vídeo dos bastidores de gravação de um cd com cantores populares bem famosos. Estavam todos ali, sentados, acomodados como se estivessem em suas casas (estivessem no banheiro seria igual), aprendendo a música de última hora, resolvendo quem faria o quê. Tive a curiosidade de ver o tal vídeo, pois sua música principal fez um sucesso estrondoso e instantâneo. Digo que, aos meus ouvidos, a música era (e é) uma merda. A melodia poderia ser feita por um imbecíl; a letra, de um “romantismo” infantil; os intérpretes… bem, esses pareciam estar em alfa, com voz nenhuma, sussurrando aquele absurdo. Na minha opinião, nosso país – falo do Brasil, mas esse é um fenômeno mundial – desaprendeu a pensar, a receber algo consistente e mastigar, mastigar; estamos no tempo da papinha. Quanto mais fácil for, melhor. O resultado é que para fazer músicas para pessoas medíocres precisa-se, apenas, de um compositor medíocre, de intérpretes medíocres. Letra… pra quê? É só colocar algo sobre o amor, mesmo que esse “amor” seja apenas uma bela palavra pra “sexo”, e pronto: “Ah, a música é linda, a mais linda que já foi feita!!!” Até vir outra pior, claro. Por essa e outras razões os artistas não têm vez. Artista demora pra ser feito. Artista, quanto mais velho, melhor. A matéria prima do artista é a sua vida. A arte fala da vida a partir da vivência pessoal do artista. Esse tipo de gente, o artista, incomoda. E, no Brasil, incomodar é proibido. Quem incomoda é posto de lado. Me lembro de ter lido que o tenor Beniamino Gigli, no auge de sua carreira, foi questionado por uma criança sobre quanto tempo um cantor deveria estudar para cantar como ele. Gigli disse: “Eu acabei de estudar faz cinco minutos.” É isso.

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